agosto 31st, 2008
Grafite sai do muro e já decora até castelo
Saiu no Estado de São Paulo, olha só o Nunca fazendo sucesso pelo mundo…
A arte das ruas ganha espaços mais nobres e exposição em Londres

De marginal a obra de arte. O grafite percorreu um longo e tortuoso caminho desde quando ainda era visto como um ato transgressor de jovens da periferia e injustamente colocado no mesmo rol das pichações. Chegou às galerias - e às paredes da Tate Modern, em Londres, onde estão expostos até 28 de agosto trabalhos de artistas de todo o mundo, entre eles os brasileiros Nunca e osgemeos. Conquistas como essa ajudam a derrubar antigos tabus do grafite. E a arte da rua ganha novos e nobres espaços - o mais recente, as casas.
O arquiteto José Ricardo Basiches, que trabalha com casas e apartamentos de alto padrão, tem apostado no grafite para quebrar a sisudez de ambientes carregados de tradição. “Ainda existe um certo preconceito, essa coisa de achar que grafite é vandalismo. Nesse sentido, eu estou ajudando a mudar a cara do grafite. Até os clientes mais conservadores estão adorando”, diz o arquiteto.
Levar um grafiteiro para casa não custa menos do que R$ 6 mil - há dois anos, o valor era um terço desse. Se for um castelo na Escócia, então… Os artistas Nunca, osgemeos e Nina, casada com um dos irmãos Pandolfo, não revelam quanto receberam do dono de uma propriedade particular de 900 anos - quase o dobro da idade do Brasil - para cobrir toda a área externa com um moderno e colorido grafite. Quando recebe uma encomenda assim, o apartamento é fotografado e um desenho é inserido na imagem digital, simulando o que deverá ser feito. “Assim, o cliente tem uma idéia do que terá na sua parede”, diz Basiches.
A onda de contratar grafiteiros para pintar residências particulares ganhou força depois que o muro de uma casa em Londres, com um trabalho do grafiteiro britânico Banksy, foi arrancado pelo novo proprietário e leiloado, arrematando R$ 642 mil. “Banksy é um fenômeno, o primeiro artista que veio do grafite e estourou. Um sucesso de vendas, que levou os preços das obras às alturas”, diz Baixo Ribeiro, da Galeria Choque Cultural, representante de 20 artistas grafiteiros. No mês passado, uma dezena deles ocupou a galeria londrina Ocontemporary, que, em setembro, abrirá as portas para uma mostra solo de outro brasileiro do grafite, Titi Freak. Uma tela sua de 1,40 x 0,90 m está à venda por R$ 20 mil. Em quatro anos, desde a abertura da Choque Cultural, as obras de Freak, Daniel Melim e Speto valorizaram oito vezes.
A valorização do trabalho desses artistas fez alguns clientes preferirem encomendar telas no tamanho das paredes de suas casas. Quando mudam de endereço, levam a obra. Foi assim no último apartamento reformado por Basiches, no Itaim. “Os proprietários se deram conta do valor que esses artistas vêm adquirindo.”
Miguel Chaia, crítico de arte, colecionador e pesquisador do Núcleo de Arte, Mídia e Política da PUC, é dono do maior acervo de artistas grafiteiros. Sua coleção tem obras de 20 nomes, como Nunca, Kboco, Zezão, Buleta, Titi Freak, Speto, Daniel Melim, Higraf, Carlos Contente, Marcelo Cidade e o japonês Kansuke Akiq. “Limitar o trabalho do artista ao grafite é preconceito. Por que um artista contemporâneo pode fazer vídeo, fotografia, performance, instalação, e o grafiteiro não pode fazer fotografia, pintura, desenho? A contemporaneidade abriu esse espaço. Até a Tate trabalha com grafite. É um grande sinal”, diz Chaia.
“A galeria quebrou um tabu ao abrir sua área externa”, diz o grafiteiro paulistano Nunca, de 25 anos, que cresceu em Itaquera e já foi preso por pintar muros da cidade. Além do castelo na Escócia, ele fez uma casa nos Jardins e a entrada do câmpus da Universidade Cruzeiro do Sul, em Pinheiros. E prepara uma obra para compor o espaço do arquiteto Duda Porto na Casa Cor do Rio. Neste mês, ele expõe na Itália esculturas que criou com índios carajás e negocia uma mostra solo com duas galerias inglesas. “Ninguém imaginava que o grafite chegaria aonde chegou.”
